CPI da Chapecoense deve terminar sem ouvir empresa cobrada por indenizações
Foto: Pedro França/Agência Senado

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Chapecoense deve terminar sem ouvir representantes da seguradora britânica Tokio Marine Kiln, alvo de ações judiciais por não ter pagado indenizações às famílias das vítimas da tragédia.
 

É da Tokio, em última instância, que as famílias cobram uma indenização que, mais de cinco anos após a tragédia, ainda não foi paga. Há ações judiciais no Brasil, no Reino Unido (onde ela tem sede) e nos Estados Unidos —onde o valor do pagamento às famílias foi estipulado em R$ 4,2 bilhões, conforme revelou a Folha de S.Paulo.
 

A Tokio Marine Kiln atuava como resseguradora do voo 2933 da LaMia, que caiu nos arredores de Medellín (Colômbia), no final de 2016, quando levava a equipe da Chapecoense para disputar a final da Copa Sul-Americana. O acidente deixou 71 mortos, entre atletas, dirigentes, jornalistas e funcionários.
 

Em fevereiro, foi aprovado um requerimento para convidar Brad Irick, CEO da empresa, para um depoimento, que não chegou a ser marcado.
 

A CPI tem prazo máximo para acabar no dia 11 de julho, mas já nesta quarta-feira (18), no primeiro encontro do grupo desde a aprovação deste requerimento, foi colocado em pauta a deliberação do relatório final da investigação —que, portanto, não ouviu o executivo— de autoria do senador Izalci Lucas (PSDB-DF)
 

A expectativa de alguns parlamentares era que o texto fosse aprovado, colocando um ponto final na CPI. Porém, após reclamação das viúvas das vítimas e de sobreviventes, senadores se articularam e conseguiram dar sobrevida à comissão.
 

"Não consigo entender o motivo do encerramento. A gente juntou dados e fatos para a CPI e é o momento mais importante, tentar ouvir o presidente da Tokio Marine [Kiln]", afirmou Neto, zagueiro que sobreviveu à queda, à reportagem.
 

"Seria importante a continuidade, até pela pressão contra as empresas. Apesar do esforço enorme dos senadores, seis anos depois do acidente, nós continuamos negligenciados pelas empresas", afirmou Fabienne Belle, viúva do fisiologista Luiz César Martins Cunha e presidente da Afav-C (Associação dos Familiares das Vítimas do Voo da Chapecoense).
 

Nos bastidores, já com o relatório final em mãos, os senadores Esperidião Amin (PP-SC), Jorge Kajuru (Podemos-GO) e Leila Barros (PDT-DF), ao menos por enquanto, conseguiram manter viva a possibilidade que esse depoimento aconteça.
 

Foi solicitado por eles, na sessão desta quarta e após a entrega do texto, que fosse feito mais um esforço para que a Tokio fosse ouvida. Também foram apresentados novos requerimentos para ouvir a Aon (corretora do seguro) e os procuradores de Chapecó que investigam o caso.
 

Agora, em que pese não haver data para que nenhum desses depoimentos aconteça, o debate e votação do relatório final também ficou para outro momento.
 

"Eu queria que continuasse exatamente para ouvir essa empresa e queria insistir, mesmo que outros membros não concordem, que o governo federal deveria entrar nesse caso, com todo o poder que uma CPI não tem, para cobrar uma solução. Se fosse um voo do Flamengo ou Palmeiras, ele não entraria?", afirmou Jorge Kajuru.
 

"Dá para fazer um esforço a mais, pressionar um pouco mais para conseguir um acordo. Depois dessas reuniões de 6 e 7 de abril, que eu fiz muita força para que acontecessem, temos que forçar um pouco mais a negociação", comentou Esperidião Amin.
 

As reuniões às quais o senador se refere aconteceram no Rio de Janeiro, no escritório do advogado Luis Adams —ele e Henrique Junqueira, que trabalha com o senador Jorginho Mello (PL-SC), presidente da CPI, foram intermediários do encontro, que contou com representantes das famílias vítimas e da Tokio.
 

No encontro, uma tentativa de conciliação entre as partes, a seguradora ofereceu um acordo com pagamento de US$ 25 milhões (R$ 123,5 milhões) às famílias —valor dez vezes menor ao pedido pelas famílias, de US$ 250 milhões (R$ 1,2 bilhão). Vale lembrar que a Justiça dos EUA estipulou que a indenização às vítimas deveria ser de US$ 844 milhões (R$ 4,2 bilhões).
 

O valor oferecido pela seguradora é o mesmo que consta na apólice do voo da LaMia. No entanto, esse contrato é contestado pela defesa das famílias e, inclusive, já foi usado pela própria Tokio Marine Kiln para justificar o não pagamento de indenizações às vítimas.
 

A defesa afirma que a apólice havia sido definida como se o voo fosse de carreira, o que originou um valor abaixo do geralmente praticado para equipes de futebol.
 

O contrato também tinha uma cláusula que excluía o território da Colômbia, destino do voo, da zona de cobertura do seguro —motivo pelo qual a mesma Tokio Marine Kiln se recusou a pagar indenizações—, o que inclusive deveria ter impedido a aeronave de decolar.
 

"A gente tinha esperança de continuar a negociação, para não deixar esse caso cair no esquecimento", afirmou Dhayane Pallaoro, filha do então presidente do clube e que estava no voo, Sandro Pallaoro.
 

Conforme revelou a Folha de S.Paulo, documentos que constam na Justiça britânica mostram que, além da Tokio Marine Kiln (resseguradora), da Bisa (seguradora do voo) e da Aon (corretora), outras 12 empresas podem ser responsabilizadas pela tragédia.
 

No mercado de seguros, uma mesma apólice pode ser dividida entre concorrentes, com porcentagens diferentes entre elas. O dado é importante porque a Bisa não tem capacidade financeira para arcar com o pagamento do seguro —que seria, então, de responsabilidade da resseguradora.
 

Caso as famílias das vítimas e sobreviventes ganhem o processo, essas 13 empresas teriam de dividir a quitação da apólice —a documentação, no entanto, não diz qual a porcentagem de cada uma das empresas no resseguro da LaMia.
 

Além da Tokio, a corretora de seguros Aon é vista como outra peça chave nessa história, pois, na visão das viúvas, não deveria ter permitido que o contrato fosse feito.
 

A controladora de voo que autorizou o plano de voo da aeronave, mesmo com diversos problemas, Celia Castedo Monasterio, foi presa em 2021 —ela alega que a responsabilidade de fiscalizar esses detalhes era dos funcionários da pista do aeroporto.
 

Além disso, no início do ano a Folha de S.Paulo mostrou que a Chapecoense deixou de pagar o acordo de indenização às vítimas da tragédia.
 

Em resposta, familiares pediram que fossem retiradas as fotos das vítimas do site e do estádio do clube, que está em processo de recuperação judicial.