Guerra na Ucrânia pode contribuir para estagnação do PIB do Brasil em 2022
Foto: Aytac Unal/Agência Anadolu via Getty Images

A economia brasileira voltou aos níveis pré-pandemia, depois de avançar 4,6% em 2021. O desempenho desde o início da crise sanitária mostra, no entanto, um país que praticamente não saiu do lugar e continua crescendo abaixo da média mundial.
 

A expectativa para 2022 é de um resultado para o PIB (Produto Interno Bruto) ainda fraco, com a maioria das projeções variando entre -0,5% e 0,5%, embora o dado mais positivo no final do ano passado tenha levado a uma revisão para cima nos números.
 

Esse cenário pode se agravar a depender da duração e dos impactos econômicos da guerra na Ucrânia. Uma solução rápida para o conflito, no entanto, ainda é o cenário da maioria dos analistas.
 

Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, afirma que a sua projeção de crescimento de 0,2% para 2022 pode ser revisada para algo mais próximo de 0,5%, considerando que o resultado de 2021 veio melhor que o esperado e deixa uma herança estatística positiva de 0,3% para este ano.
 

Ela diz que o investimento pode ser novamente a surpresa positiva do PIB neste ano, depois do crescimento de 17,2% em 2021, mesmo em um cenário de aperto monetário, eleições e outras incertezas. O consumo, no entanto, deve se retrair.
 

"A gente vai ter um crescimento baixo neste ano. A inflação e os juros altos ainda vão prejudicar o consumo. Pelo lado das famílias, a sensação térmica vai ser de um PIB fraco, mesmo que a gente tenha um número positivo", afirmou a economista.
 

Vitoria afirma que a recuperação dos serviços também deixa uma perspectiva um pouco melhor para este ano, destacando que no segundo semestre de 2020 o PIB voltou a crescer, mas o emprego não reagia. E que em boa parte de 2021 ocorreu o contrário, contração da economia no segundo e terceiro trimestres, mas com recuperação do emprego.
 

"Esses setores têm capacidade para crescer neste ano, então a gente ainda pode ver geração de emprego, mas a inflação vem reduzindo o poder de compra das famílias. Por isso, a gente não vai ver um estímulo muito positivo para o consumo. Se tiver alguma surpresa positiva, vai vir de novo do investimento e do setor externo. O consumo tende a ter queda."
 

O economista do Itaú Luka Barbosa afirma que o dado do quarto trimestre veio acima da projeção de crescimento de 0,1% do banco, com uma surpresa positiva espalhada por todos os setores, principalmente na agropecuária.
 

O banco deve rever a projeção de queda de 0,5% do PIB neste ano, pois tinha uma expectativa de carrego estatístico de -0,1% para 2022, o que acabou ficando em +0,3%.
 

Ele diz que a economia brasileira responde, principalmente, a três fundamentos: preços de commodities, medidas fiscais e juros. "A política monetária é claramente contracionista, e isso prejudica a atividade neste ano, mas os outros dois fundamentos trazem algum efeito expansionista para o PIB do Brasil."
 

O Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV), que projetava exatamente crescimento de 4,6% no ano e 0,5% no trimestre, espera uma expansão de 0,6% em 2022.
 

Armando Castelar, pesquisador associado do instituto, destaca o crescimento acima de 17% do investimento no ano passado, também antecipado pelo Ibre, com uma expansão de quase 30% no segmento de máquinas e equipamentos.
 

Ele lembra que os números ainda não voltaram ao patamar recorde de 2013 e vê desafios para que haja uma nova expansão em 2022 diante dos juros mais elevados. Pondera, no entanto, que os estados têm caixa para aumentar investimentos no ano eleitoral, dada a boa arrecadação do ano passado. Os impostos sobre produtos cresceram 6,4% no ano passado, com peso de 50% do ICMS estadual.
 

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, afirma que a retomada dos segmentos de serviços mais afetados pela pandemia deve continuar em 2022 e que isso, junto com um bom desempenho da agropecuária, pode puxar o PIB para um resultado positivo.
 

"A gente tem um cenário de 0,5% de crescimento, mas esse PIB, embora traga um carrego estatístico pequeno, dá alguns sinais de possibilidade de um crescimento mais próximo de 1%."
 

Até a semana passada, a mediana das projeções de mercado para o PIB de 2022 eram de um crescimento de 0,3%, em um ambiente de inflação ainda acima da meta e de juros elevados.
 

Reportagem da Folha de dezembro mostrou que a economia brasileira deve completar pelo menos 16 anos de crescimento abaixo da média mundial, período que teve início no governo Dilma Rousseff, em 2011, e pode se estender até o final do próximo mandato presidencial, em 2026.